07/05/2014

Recortes dos dias ... Marte


 
Ilustração Catarina Sobral

Na agenda paralela, a da rede social, estava lá: ver Marte. Ia estar pertinho, no meio do 

céu, no meio da noite. Bem, se eu estivesse no meio do quintal dava prá ver. Claro que eu 

podia só ir lá fora, olhar prá cima e pronto, Marte estaria registrado em mim. Mas eu quis 

fotografar prá postar e dizer prá todo mundo: Vejam, eu vi Marte! Merda de ego. E aí 

começou: um edredron prá me deitar na grama? Hum.... todos limpos. Grama com 

Malathion da equipe da dengue que entrou aqui com um canhão de veneno. Um 

lençolzinho, mais fácil de lavar? E se tiver caramujos na grama? Não ia gostar de um "crec"

nas costas e uma meleca no lençol. Cadeira... melhor cadeira. Não dou conta de virar o 

pescoço prá cima por mais de um minuto. E outra cadeira no colo, prá servir de tripé. 

Marte é longe... Difícil é respirar, pois a cadeira de cima respira junto, a máquina vai no 

embalo, Marte treme, a foto desfoca, a cadeira cai, caio eu na grama sob Marte. E então 

me pego assim pensando em todo sistema: Marte, eu, Terra, terra, grama, universo. E me 

esbaldo na relatividade. Somos todos átomos. Somos todos grama. Somos todos Marte. 

Somos todos caramujos. É tudo uma coisa só.

Tereza





Hoje tem festa de aniversário de uma amiga na rede social e minha conexão sumiu. Festa na rede é legal: sem custos, sem lixo, sem ressaca e sem presentes caros: só fotos e textos. Falei das nove ao meio dia com a operadora. Desenhei um peixinho cada vez que ouvi “um momento, por favor”. Disse nome e CPF nove vezes, rabiscando bolinhas. Tudo o que consegui foram doze protocolos, uma obra-prima com quarenta e oito peixes e a promessa de que tudo se resolverá em cinco dias úteis. Mas, só prá compartilhar a irritação, decidi chamar todas as atendentes pelo nome da primeira: Tereza. Depois dela, todas eram.
- Senhora, meu nome é Camila.
- Desculpa, Tereza, tenho dificuldade em memorizar nomes...
- Senhora, meu nome é Fabio.
- Perdão, Tereza, fale mais alto, não escuto bem. Sabe... a idade...
Duas Tereza desligaram bem nervosas.
Três semanas iguais: quinta-feira sem conexão. Seria um Plano Diabólico da operadora para eu aderir ao Plano Plus Super Diabólico que inclui internet às quintas? Mas perco total a paciência, decido ficar para sempre desconectada, desisto e desligo. Penso no meu neto vindo almoçar, nos legumes na pia, nas cachorras me olhando e dizendo “pulgas!” e no computador aberto gritando “a revista!” Penso também na aniversariante e no presente que não vai à festa: a foto de trinta anos atrás, num restaurante horroroso nessa mesma data. Tinha um bolinho miúdo e poucas velinhas. A foto até que está bem restaurada, mas a mancha de mofo na minha cabeça agora parece um chapéu etrusco.
Deletados festa e presente, resta o tradicional parabéns por telefone, já que esse ainda funciona. Aliás, toca. Meu neto, será?
- Oi, vó! Reconecta os cabos do modem. Tira e coloca de novo!
- Você instalou câmeras na minha casa? Eu não pretendo sorrir!
- Vovó querida, esquece a operadora e o sorriso. Reconecta os cabos. Você consegue, Flipper. Vai ganhar sardinhas!!
- Dá para me explicar o que está acontecendo, caro Sherlock?
- Elementar... juntei dois fatos: seu telefone ocupado desde cedo e hoje é quinta. Ó: na quarta-feira a faxineira nova incorpora a Fúria do Aspirador e desconecta tudo o que encontra pela frente. Você chega do Yoga super zen e nem liga o computador. Quinta sua internet não funciona e você se atraca a manhã toda com a operadora. Daí você lembra de mim, do almoço, desliga e eu chego. Enquanto espero você criar seus pratos naturebas, ligo o computador, reconecto o modem e pronto, normal. Você acha que a operadora consertou. Toda quinta é assim. Só que hoje eu não vou.
- Pode ser. Mas, raios, porque você não me contou isso antes?
- Porque você me tira do computador, me arrasta prá mesa, eu tento explicar do modem, você diz que no almoço não se fala em problemas e ponto final. Aí ficamos brincando de saber de onde vem cada alimento, curtindo as cores dos legumes e eu esqueço as conexões. Crianças esquecem com facilidade, vovó.
- E por que você não veio hoje?
- Minha mãe acordou pensando que era quarta, me jogou embaixo do chuveiro, disse para eu lavar as orelhas e esperar a babá. Eu tentei avisar que era quinta, mas ela saiu feito um raio para uma reunião bem longe, que deve ter sido ...ontem. Como você estava incomunicável, liguei para a empresa de babás e pedi uma. Já está aqui comigo. Estou tentando dizer isso prá minha mãe cada vez que ela liga, mas ela diz que é prá eu ficar calmo, sentado, quietinho, até ela chegar. E nem me deixa falar! Caramba, por que vocês nunca me escutam?

17/02/2013

Recortes dos dias... Domingo


ilustração Bia Porto



Na praia, no guardassol ao lado... A média de idade dos 

dois? Uns setenta, por ai. Ele mais queimado de sol, aquele 

queimado curtido, de muitos sóis. Ela loira, cabelo bem 

cortado, curto, moderninho. Lia Nietzsche, ela. Às vezes 

continuavam uma conversa que me parecia ter começado 

há muitos, muitos anos. Num momento ela se levantou e foi 

em linha reta para o mar, num maiô inteiro preto, básico. 

Entrou sem medo e sem pressa. Ele foi em seguida, com 

máquina fotográfica, mas não seguiu em linha reta. Fez uma 

curva como se a quisesse fotografar em perfil ou 

surpreendê-la de frente, equilibrando-se para não mollhar a 

máquina. Quantas fotos ele já teria feito dela? 

E pensei:

 - Estou vendo o amor.

09/02/2013

Recortes dos dias.... Cadê tudo?


ilustração Bia Porto

Faxina é coisa de doido, né? Dei duas voltas na casa 

procurando o raio da vassoura. Nada. Aí vou lavar o 

banheiro e toca o telefone e eu perco o rodinho, mas acho a 

vassoura. Então vou varrer o quintal e paro prá fotografar 

formigas. Aí é a vez da pazinha se esconder. Termino de 

varrer o quintal, as cachorras estão com fome. Dou comida

e elas vão fazer cocô onde eu varrri. Varro de novo. O

 telefone toca, onde? Na bolsa. Tirar o lixo da bolsa e dar 

uma olhada no face. Esqueci onde estava. No banheiro. A 

máquina de lavar roupa!!!! Ops! Dá fome, esquentar o arroz, 

pegar a salsinha. Por que não arrancar os matinhos da 

hortinha? O arroz queima. Perdi a pá de novo. Cadê os pregadores?

13/12/2012

papai.noel@natal2012.com





- Vó, o que é consumo sustentável?
Por que tem que ser assim? Sempre que tenho urgência na entrega de um trabalho essa danada de filha deixa o menino aqui?  Claro que gosto dele,  mas justo quando o prazo é menor do que o tempo? Ela adivinha...
- Querido, porque você não usa um buscador? Está conectado, não está?
- É que a “prô” não quer pesquisa, quer a gente interaja com a família, conversando. Vai ser uma apresentação oral para a turma toda. 
- E como você interagiu com sua mãe?
- Ela falou que os juros do cartão são insustentáveis. E saiu prá comprar alguma coisa.
Desisto do prazo. A Beatriz que espere. Afinal, algo ou alguém que não tenha um botão ON ou ENTER  tem que conversar com essa criança.
- Tudo o que usamos é feito com partes do planeta. Sua camiseta, por exemplo, é feita de uma planta chamada algodão, que dá um fruto branco, fofinho. É dele que são feitos os fios. Depois vem várias etapas como tecer, colorir, costurar, embalar e vender. Prá ela ficar pronta gastou-se água, solo, trabalho de pessoas, combustível, etc..  As coisas não nascem nas lojas. Ou seja, sua camiseta tem muitas histórias...
- Minha camiseta é um vegetal? Uau!
- Foi. As coisas se transformam. Essa mesa, por exemplo, já foi árvore. O plástico do computador pode ter sido um dinossauro. 
- Um dinossauro virar computador? Vó, a senhora não errou seu remédio? Minha mãe disse que a senhora anda meio confusa...
Finjo que não escuto e continuo:
- Plástico vem do petróleo, que se formou pela decomposição de florestas e animais, há milhões de anos.  Quem garante que no tantinho de petróleo que veio parar nesse plástico preto aí não tinha um pé de dinossauro? Parece mágica, né?
- Não tem nada de mágica, vó. Assisti um documentário da história do petróleo no Discovery. Mas isso de uma coisa virar outra é irado!
- Na natureza tudo se transforma. Lembra da cachorra Lola? É possível que partes dela estejam voando por aí em passarinhos, pois a enterrei no jardim e plantei em cima a amoreira. A Lola virou terra, que alimentou a amoreira, que alimenta os passarinhos.
- Menos, vó, menos. A Lola foi compostada por organismos decompositores e virou húmus. Já aprendi isso na escola. Mas, me ajuda. Tenho só cinco minutos para falar minha parte e você fala, fala, e não responde de forma objetiva... O que é consumo sustentável?
Fico pasma com o vocabulário. Tem só tem sete anos e fala como um técnico.  Deixo de lado a poesia:
 - É bom saber que “querer” é uma coisa, “precisar” é outra, e não comprar ou pegar o que não precisamos. Tudo o que a TV anuncia, por exemplo, são as coisas das quais não precisamos. Você já viu comercial de tomate ou de laranja?  Fica a dica: coisa necessária não precisa de propaganda. Ou seja, precisamos ficar espertos e recusar tranqueiras que são fabricadas só para se jogar fora, pois o que a gente joga no lixo não se transforma mais em nada. Sem chance de transformação. Game over. Se a gente continuar consumindo nesse pique, vocês, crianças, vão ficar numa encrenca danada. Consumo sustentável é consumo inteligente e amoroso. Respeita a Terra, as pessoas, o futuro. Sem desperdícios.
Ele fica quieto, olhando prá dentro. Lá vem bomba.
- Entendi. Minha mãe é insustentável, né?  Compra um monte de coisas que não precisa. Aliás, ela só pensa em comprar, comprar... Até comida fora ela joga! Ainda bem que ela vai me ouvir falar na escola!  Por falar nisso, você não quer fazer umas panquecas? Estou com fome.
Na cozinha, entre farinha e ovos, meu coração fica apertado. Onde foram parar as fadas, os gnomos e as bruxas? O gato de Alice? Peter Pan? A emoção, tão importante na formação da criatividade, não cabe mais na infância? Crianças concretas, racionais? E a fantasia, como fica? Acabou?
Panquecas prontas volto à sala. Ele digita muito sério.
- O que você está escrevendo?
- Sobre consumo, vó, claro.
-Mas não era uma apresentação oral?
A resposta resgata minha alegria.
- Vai ser. Estou escrevendo para o Papai Noel.  Para ele não trazer nada do que pedi.  Tomara que dê tempo. Se ele trouxer o que todo mundo pediu, o planeta acaba. Você tem o e mail dele?

05/12/2011

Vovó Aranha


Agenda para o primeiro  dia de aposentada: enrolar na cama, acordar às 12:00, passar o dia de camiseta e brincar com as cachorras. Almoçar omelete e jantar pizza. Ver novela, todas. Sem internet. Sem arrumações.  Bom, né? 
Mas não foi exatamente assim. Dessa adorável programação não cumpri nem  o primeiro item: dormir até tarde.
Às oito, o telefone.
- Vó, posso fazer minha festa de aniversário na sua casa? Minha mãe disse que aqui não cabe.
- Chama sua mãe.
- Bom dia, querida! Que bom que você concordou! Sabe, aqui é pequeno, as crianças gritam, o prédio é muito chato... – diz uma voz que conheço bem, num tom que também conheço. 
- Não concordei ainda. Vamos lá: quantas crianças e quantos adultos?
- Não sei... uns 10 ou 20.  É só a galerinha da classe.  
- Então anote aí:  crachá nas crianças com nome, telefone e possíveis alergias, certo?  Pais e mães não bebem, ok?  Final às 22 horas. Nada descartável. Use os pratinhos e copos das últimas festas que, por sinal, são lindos. Viu, valeu a pena investir nos duráveis!  Menos gastos e menos lixo. Nada de trecos de isopor. Tudo com seu cartão!
- É justo. Mas você providencia uma bebidinha para mães? Algo leve... um vinho?
Finjo que não escutei. Tudo o que não preciso é de mães alegrinhas esmagando brigadeiros nos sofás. Mas, bem no fundo, estou adorando a idéia. Um dia de bagunça não pode ser tão ruim.
 O aniversariante volta ao telefone:
- Vó, tem que ter fantasia. Todo mundo, até mães e pais. Não entra sem, tá?  Você também.  
- Sua mãe vem fantasiada de mágica? É que ela adora desaparecer no meio do circo! E eu não tenho que me fantasiar para entrar onde já estou.
- Minha mãe nem vai. Vou com a Camila e com a mãe dela.  Elas vão de fadas.  Vai ser chato só você sem fantasia.  Pô, vó... todo mundo é todo mundo...
Pensando bem, já que a mãe do pimpolho vai pagar tudo, e com  certeza sumir do mapa, não custa nada eu usar uma fantasia.
 Claro que minha agenda de paz celestial virou um tour infernal por locadoras de fantasias em busca de algo tamanho G que não fosse roupa de fantasma.  Por fim, numa lojinha chinesa,  consigo uma  Mulher Aranha GG que, depois de alguns ajustes para não parecer comprada num sex shop, ficou razoável.   
A festa começa na hora prevista e tudo está sob controle. Fadas e ciganas adultas fofocam pelos cantos e os vinte e poucos extraterrestres brincam, dançam, comem.
Eis que o interfone toca! Um atrasado?! Antes que eu diga “pode entrar”  o porteiro grita:
- A senhora precisa vir aqui agora! Está a maior confusão! Tem um monte de gente fantasiada!  Tem até polícia!
Arrasto meu neto prá um canto e fulmino:
- Quantos mais você convidou? Quero números!
- Ninguém... meus  amigos do Facebook... só... uns  500, uns 1000... Juro que....
 Sem raciocinar saio em desabalada carreira e petrifico na guarita do condomínio. Na rua, uma fila dupla dobra a esquina até não sei onde.   Atrapalhadas e festivas,  dezenas de borboletas, batmans, diabinhos, flores, piratas e até um pai-robô e uma mãe  sereia  se acotovelam para entrar. Um guarda de trânsito tenta colocar ordem na bagunça.  Dois policiais (ou estariam fantasiados?!) me cercam e perguntam:
- A festa é da senhora?
-  Não, quer dizer, acho que sim.
- Por favor, queira nos acompanhar-  diz um deles com firmeza,  já me conduzindo para a viatura.
Peço para buscar minha bolsa e deixar alguém responsável pela festa. Ligo para minha filha só para confirmar o que já sabia: fora de área.
São duas horas da madrugada. Estou esperando meu advogado sentada num banco de delegacia.  Ele não entendeu nada quando eu pedi que viesse logo, pois estou vestida de Mulher Aranha e com frio. (A capinha de Batman que arranquei de um menino antes de entrar na viatura só me aquece um braço.)  
A vida começa a ficar divertida.

16/06/2011

Torta de Criptônio


ilustração Bia Porto
      Pois é. Cá estamos, meu neto e eu, lado a lado, cada qual com seu notebook. Ele na tarefa da escola e eu começando um orçamento que preciso entregar ontem. A diferença é um zero: eu sessenta, ele seis.
      Não disfarcei a irritação quando o pai dessa criança a empurrou porta adentro dizendo que era só por algumas horas: ele e a mãe precisavam sair e a babá tinha faltado. Argumentei que adoro meu neto, que gosto muito quando ele fica em casa, mas que hoje preciso trabalhar. Só a porta ouviu meu protesto.  Enfim, estamos aqui e não nego minha felicidade com a coisinha por perto. Começo minha planilha e ao que parece o pimpolho já está envolvido na sua missão.  Fico curiosa para saber que tarefa a escola dá a uma criança de pouco mais de seis anos, mas me calo. Melhor mergulhar nos números.
     - Vó... o que é meio ambiente?
     Pronto... começou. Lá se foi minha planilha...
     - Procura no Google.
     - Já procurei. Tem 60 milhões de resultados. Qual eu copio?
     - Não é para copiar, é para ler, entender e escrever.  Pega o primeiro resultado. Você não trouxe um caderno?
     - Não sei escrever!  Mas sei ler.
     - Mas não escreveu na janelinha do Google?
     - Não, só digitei. Só vou escrever em papel no ano que vem. Você sabe ou não o que é meio ambiente?
    - Sei. – respondo, aflita, o orçamento ainda no primeiro de 50 itens. –  Digita aí que é o planeta inteiro com seus reinos vegetal, animal e mineral.
    - Dá um exemplo. A profa sempre dá e a gente entende melhor.
    - Água e terra são do reino mineral, plantas do reino vegetal, e gente e bichos do animal.- concluo com toda certeza de  uma sábia avó.
    - A água da torneira também é mineral?
    - Claro. Toda água é mineral. Você já viu água vegetal ou animal?
    Ele pensa um pouco. Nasceu depois da invasão do plástico, não conheceu a eficiência dos filtros de barro e ainda não se deu conta de que essa lenda de água “mineral” só serve para vender garrafas plásticas. Mas... não vou falar disso agora. Consigo passar para o item 02 do orçamento.  
    - E o ar? É mineral também?  Não tem cara de vegetal nem de animal.
    Fico confusa. O ar?  Tudo parecia tão simples... E essa agora?  Melhor ligar para a amiga bióloga. Vamos lá...
    - Alô? Edison? A Patrícia está por perto? Não precisa chamar... Só pergunta pra ela se ar é mineral! – falo, esperando uma resposta qualquer, desde que curta e clara.
    Ouço uma conversa entre eles e ela pega o telefone.
   - Na verdade não, pois o ar tem compostos inclusive orgânicos, como gás carbônico, além de oxigênio, nitrogênio, argônio, criptônio, hélio, neônio, e xenônio. Essa classificação de reino mineral, vegetal e animal não é mais usada... as coisas mudam... na abordagem atual são considerados os aspectos geomorfológicos.... troposfera, estratosfera, , termosfera e exosfera ... patati.. patatá...
    Tento anotar o que ela fala, mas me perco e desisto. Ela diz que os reinos agora servem só para seres vivos, que reúnem, por exemplo, espécies e famílias de animais.  Espécie é um conjunto de uma ou mais populações que partilham o mesmo fundo genético e produzem descendentes férteis. Família... não deu tempo de anotar...Mas ela dá um exemplo que entendo, mas não consigo juntar com  tudo que ouvi.
   - Se um tigre cruza com um gato, os filhotes serão estéreis Por isso são de espécies diferentes. Se um viralata cruza com um poodle, os filhotes serão bem feios, mas podem ter descendentes. São, portanto, da mesma espécie.
     Desligo. A idéia de um tigre cruzando com um gato me confunde. Se eu fosse um tigre comeria o gato, mas talvez as coisas tenham mesmo mudado até para os tigres.
    O garotão me olha ansioso pela resposta.
    - Vó, o que é meio ambiente?  Preciso terminar a lição...
    - Não sei mais o que é. Quando a Terra era mais simples e só tinha atmosfera eu sabia..– respondo reticente. – Não sei mais.
    - Ela não explicou? Ficou tanto tempo falando...
    - Não. Ela só disse que as coisas mudam depressa demais e as avós devem preparar bolinhos para o lanche. Quando seu pai voltar pergunta essa coisa de ambiente pra ele. Agora vamos para a cozinha fazer uma torta de criptônio e um suco de mesosfera bem gelado. Depois você vai desligar o computador e ler uma história infantil.  Num livro, claro, e no quarto.